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O Brasil na pandemia: uma abordagem macroeconômica

por Arthur Machado


Para aqueles que se interessam em macroeconomia, provavelmente já viram como o produto de curto e de longo prazo é determinado, assim como as variáveis que o compõe. Como consequência disso, sabem o que é a demanda agregada e o que é a oferta agregada. A partir daí algumas coisas ficam mais claras quando se trata da economia real. As políticas fiscal e monetária se tornam mais compreensíveis, e os possíveis cenários passam a ser mentalizados. A identificação com o que é feito sobre uma economia que entra em colapso e os procedimentos que se sucedem após uma reação, com a tentativa de manter bons resultados e gerar um crescimento sólido, também se torna algo menos enigmático, ou mais natural.


Esse texto foi elaborado com o intuito de fazer um paralelo entre essa parte um pouco mais teórica da macroeconomia e as medidas econômicas que foram e estão sendo realizadas ao longo desse quase 1 ano de medo, incerteza e lapsos de esperança. Do colapso, em março de 2020, à saída técnica da recessão, até as possibilidades de crescimento e os riscos que assolam a nossa economia.


Primeiro, lembremos do dia 11 de março de 2020. Nesse dia, a OMS declarou a COVID-19 como uma pandemia, e as bolsas globais, que já vinham derretendo, consolidaram de vez a derrocada. Inclusive, a nossa bolsa perdeu, nesse mesmo dia, 14,8%. A partir daí, mesmo que com um número muito reduzido de infectados no Brasil, comércios, universidades e outros estabelecimentos começaram a se mobilizar para instaurar um precipitado lockdown. O cenário estava construído.


Se pegar a média da composição do PIB do Brasil no século XXI, sob a ótica da demanda, o consumo das famílias representa 62,3% do produto; o investimento privado, 18,3%; o gasto do governo, 19,3%; e a exportação líquida, 0,1%. Logo, é possível notar a relevância, principalmente, da renda familiar na construção do nosso produto interno. Então, com o país em um cenário de lockdown que, além de restringir as oportunidades de consumo, destrói muitos postos de trabalho, inferiu-se que uma redução extraordinária do consumo das famílias brasileiras ocorreria. Foi o que aconteceu.


Já sobre o investimento, podemos resumir brevemente o ocorrido expondo o índice que mede a confiança do investidor. Este foi de 90,4 em janeiro para 58,2 em abril. Então, o que resta a princípio? A manutenção dos gastos do governo, mesmo que o fiscal não seja favorável, além de aproveitar a taxa de câmbio extremamente depreciada para conseguir o maior superávit possível na balança comercial.


O gráfico abaixo evidencia o que acabei de abordar. É importante ressaltar que do quarto trimestre de 2019 para o primeiro trimestre de 2020 houve uma considerável redução dos gastos do governo, antes de sermos acometidos pelo vírus. Tal fato ocorreu devido as intenções iniciais de enxugar o gasto público para ir de encontro com os objetivos fiscais do Ministério da Economia.



Fonte: IPEA | Elaboração Própria

Mas e depois do baque? Os policymakers começam a articular a fim de tirar a economia do caos. Para isso, sob uma forte influência keynesiana, as variáveis da demanda agregada são alteradas, para que, assim, o PIB de curto prazo consiga reagir. A necessidade de aumentar a renda disponível da população, principalmente para a parcela que possui a propensão marginal a consumir mais elevada, é fundamental. Assim como a redução da taxa de juros, que facilita a tomada de crédito, pois, devido a sensibilidade do investidor, há uma relação inversa entre o juros e o investimento. Dessa forma, o governo federal iniciou a distribuição do auxílio emergencial logo em abril, paralelamente a uma postura dovish por parte do BC, que já reduzia a taxa básica de juros antes mesmo da chegada da Covid-19. O gráfico abaixo mostra os cortes realizados na Selic a partir de fevereiro, até ela ser estabilizada em 2%, no início de agosto.


Fonte: BCB | Elaboração Própria


No entanto, uma queda imensurável do produto era inevitável. No segundo trimestre de 2020 o PIB brasileiro recuou 9,7%, superando a perda acumulada da recessão ocorrida entre 2014 e 2016. Inicialmente, as políticas econômicas poderiam apenas suavizar a queda, mas não evitá-la. Não fomos exceção, as principais economias passaram por processos semelhantes. Agora, a questão é como administrar uma crise desse tamanho após as medidas óbvias terem sido tomadas.


Os incentivos permaneceram, e a importância do auxílio ficou evidente após a divulgação do PIB do terceiro trimestre de 2020. A sua distribuição foi determinante para a recuperação de 7,7% do produto naquele período, e o comércio avançou 15,9%. Contudo, ele funciona apenas como estímulo, e deve ser provisório.


Assim, podemos lembrar que tudo tem o seu preço, e na economia não é diferente. Para a execução das medidas necessárias, o governo federal teve um déficit orçamentário de aproximadamente R$750 bilhões, o maior desde o início da série, em 2001, o que representa quase 10% do nosso PIB. A relação Dívida Pública/PIB, ascendente antes mesmo do início da crise, atingiu o maior patamar da história, como evidenciado no gráfico abaixo.



Fonte: Tesouro | Elaboração Própria


Esse cenário fiscal em um país com as características do nosso, um emergente que em menos de três décadas dois presidentes tiveram que deixar o cargo e que a inflação anual já chegou a 2.477,15% em um período não tão distante, somado ao contexto atual, em que também há muita instabilidade política não é nada bom. A atratividade, que já era pouca, é reduzida ainda mais. O investidor estrangeiro tem grande resistência para se expor a um país desse modelo. A taxa básica de juros na mínima histórica colabora com a redução da atratividade, e a taxa de câmbio fica à mercê da redução da aversão ao risco global e das intervenções do BC.


E agora, o Planalto ainda tem a intenção de estender o auxílio para 2021. Mas como? O cenário fiscal está extremamente deteriorado. A inflação vem crescendo, com o IPCA atingindo 1,35% em dezembro, um terço da meta, e puxada pelos itens mais primordiais da cesta, alimentos e bebidas e habitação. No curto prazo, com certeza ajudaria muita gente, mas pode não ser a medida ideal quando se trata de crescimento sustentável.


Dessa forma, retomando o lado mais teórico da macroeconomia, recapitulemos que o estímulo feito por meio da transferência de renda ou corte da taxa de juros serve apenas para, sendo redundante, estimular. No longo prazo o efeito passa a ser nulo, e é nessa hora que uma base sólida é importante para o crescimento orgânico do PIB, com a elevação do produto potencial, pelo lado da oferta agregada.


E o que determinaria a oferta agregada? O mercado de trabalho. Por quê? Sendo bem breve, porque quanto maior a população ocupada e quanto maior a produtividade do trabalho, melhor a condição para o desenvolvimento da produção. E qual é o cenário do nosso mercado de trabalho? A melhoria da produtividade do trabalho depende de fatores como, principalmente, o avanço tecnológico e o desenvolvimento da educação, o que, no contexto atual, não é nada simples. Já a população ocupada vem reduzindo gradativamente. Mesmo no terceiro trimestre de 2020, quando o nosso PIB teve uma forte recuperação, a taxa de pessoas empregadas foi reduzida.


Contudo, o auxílio emergencial vem aliviando os tão negativos dados de desemprego. Isso ocorre pois, com a transferência de renda em meio a uma crise sanitária, muitas pessoas deixam de procurar por emprego e, portanto, saem da População Economicamente Ativa (PEA), como evidenciado no gráfico abaixo.



Fonte: IBGE | Elaboração Própria


Com o fim do auxílio, muitas dessas pessoas retornarão para o mercado de trabalho, voltando a compor o PEA, contudo, desempregadas. Então, a extensão do auxílio, além de deteriorar ainda mais a situação fiscal brasileira, apenas retarda a expansão dos dados de desemprego. Devido a isso, possivelmente a alta taxa atual, de 14,1%, sofrerá um impróspero acréscimo assim que o estímulo for interrompido.


Todavia, ao que me parece, o que se faz atualmente é aumentar uma bola de neve que já é grande. Talvez seja o momento para uma política de austeridade para 2021, assim como um bom relacionamento com os criadores de postos de trabalho, tanto os investidores domésticos quanto os estrangeiros.


Por fim, com discernimento e transparência para com a população, mesmo que tortuoso, o Brasil poderia crescer de verdade. E quem sabe?

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