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Mercado da Bola - Capítulo 5: Chile e a reestruturação do futebol através do Mercado

Atualizado: 21 de nov. de 2020

Por Paulo Victor Gonçalves Pinto


Dando prosseguimento a nossa série ‘Mercado da Bola’, hoje abordaremos o caso de sucesso de nossos hermanos chilenos, que através da criação de um modelo desportivo de sociedades anônimas pode restabelecer a qualidade de seu futebol e voltar a ser um grande polo esportivo na América Latina.

No futebol chileno, o Colo-Colo é um time soberano, com 23 títulos nacionais conquistados até 2002. No entanto, a hegemonia nacional não impediu que o clube tivesse sua falência decretada pela justiça do país no mesmo ano. A situação do chile reflete bastante a atual dos clubes brasileiros, com dirigentes amadores e associações desportivas sem fins lucrativos, os clubes chilenos amargaram grandes prejuízos a cada ano e pouco dinheiro em caixa.


Essa situação teve um revés em maio de 2005, quando o governo aprovou a chamada ‘Ley 20.019’ que instituiu a criação da sociedades anonimas deportivas profesionales (SADP) permitindo que os clubes adquirissem status de empresas de capital aberto.


Colo-Colo: o pioneiro chileno


O Colo-Colo foi o primeiro clube a aderir ao novo modelo, foi criada uma sociedade anônima chamada Blanco y Negro para administrar todos os ativos do clube: atletas, estádio, televisão, patrocínios e tudo mais a que tivesse direito. O Clube social poderia ter mantido para si todas as ações do clube ou grande parte dela, como aconteceu com os clubes portugueses, mas o clube foi mais além e fez o IPO de 100% de suas ações na Bolsa de Santiago, no dia 24 de junho de 2005.


Os investidores que compraram as ações do clube passaram a ter voz na administração do clube. No entanto, os investidores não são donos absolutos. o Colo-Colo manteve consigo uma única ação Classe A, um poderoso papel que permite ao clube eleger 2 dos 9 membros do Conselho de Administração da Blanco y Negro. Os acionistas possuem 100% das ações Classe B, que permite elegerem 7 dos 9 membros. Com o IPO, o clube conseguiu arrecadar US$ 31,7 milhões, dinheiro esse que foi capaz de pagar as dívidas do clube e ainda fazer uma reforma em seu estádio.

O sucesso do Colo-Colo inspirou os seus rivais, a Universidad de Chile conseguiu arrecadar US$ 14,7 milhões com o seu IPO em 2008, enquanto que a Universidad Católica conseguiu arrecadar US$ 25 milhões com a sua abertura de capital, em 2009.


Consequências para a gestão dos clubes


A adoção do modelo de SA tem um impacto direto em duas vertentes do clube: a governança e a financeira. Na governança, um modelo de sociedade empresária possibilita uma gestão mais profissional da entidade. Isso porque a estrutura organizacional de uma sociedade anônima é mais complexa do que um associação e permite a separação da gestão do futebol e de outras atividades sociais do clube. Isso permite que as decisões tomadas sejam mais técnicas do que políticas.

Tudo isso, aliado à implementação de práticas inerentes ao mundo corporativo, tende a possibilitar uma maior transparência, atribuição de responsabilidades e cobrança de resultados (accountability), com consequências de longo prazo, como consolidação da marca, atração de patrocínios mais interessantes, estabilidade institucional e segurança jurídica (contratos celebrados em uma gestão não seriam terminados pelo próximo gestor, adversário político, como acontece tão rotineiramente no futebol brasileiro).


Do ponto de vista financeiro, a iniciativa permite que o clube se beneficie de diversas formas de arrecadação de recursos, desde por meio de IPO’s e SEO’s, como por meio da emissão de debêntures e títulos de dívida. Ao adotar o status de empresa, os clubes também tendem a conseguirem melhor negociação das dívidas por parte dos bancos, que agora vêm no clube uma gestão voltada a longo prazo e não somente politicagem de cartolas futebolísticos, diminuindo assim o risco de financiar uma associação sem fins lucrativos para agora financiar um clube com gestão empresarial, transparência contábil e voltada para o lucro.

Além disso, com as decisões passadas a serem tomadas de forma coletiva, através de acionistas que colocaram de fato o seu dinheiro nesse negócio, as administrações dos clubes chilenos se tornaram mais responsáveis e menos tolerantes a altos riscos. Segundo uma matéria do Globo Esporte, de 70% a 80% dos atletas são formados na categoria de base, raros sãos os casos de contratações milionárias de jogadores. Até porque, vigiado por acionistas e regrado pelas normas da SADP, o dirigente responderia com a perda do próprio patrimônio se tomasse decisões inconsequentes.


O modelo societário permitiu com que os clubes chilenos se salvassem da bancarrota, tendo possibilidade de pagar as suas dívidas e se reestruturar financeiramente. Os resultados podem ser vistos dentro do gramado, o Colo-Colo acumulou mais 8 títulos nacionais desde 2002, ano de sua falência. Enquanto isso, Universidade do Chile e Universidad Católica revezam-se em taças nacionais, além de terem conseguido boas campanhas na Libertadores, superando em alguns casos até os clubes brasileiros.


O Chile foi capaz de reerguer a sua liga. Clubes com gestão amadora e deficitária passaram a trabalhar com uma gestão corporativa societária, equilibrando suas contas, pagando suas dívidas e investindo mais no futebol local pelas divisões de base do que arriscados investimentos em grandes jogadores, tudo isso se refletiu em bons resultados nos gramados. As condições econômicas do Chile no passado refletem o que é o futebol brasileiro hoje, no entanto, o modelo de sociedades anônimas desportivas ainda não foi implementado pelos clubes brasileiros (A exceção de Figueirense e Athlético Paranaense). Chile serve de modelo para o Brasil, de que é possível revitalizar o futebol nacional com ajuda do mercado financeiro e assim trazer de volta a época de prosperidade e glória do futebol nacional.



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