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E se Trump não aceitar uma derrota nas eleições americanas?

por Gabriel Coelho


Estamos em Novembro de 2020, às vésperas das eleições norte-americanas e com meses de campanha percorridos pelos dois candidatos. Durante esse tempo, o presidente Donald Trump fez inúmeras promessas e firmou incontáveis acordos. Porém, há uma coisa que ele não prometeu: se comprometer com uma transição pacífica de poder em caso de derrota.


Em pleitos passados, a possibilidade de tensões no período de interregnum, que compreende todos os dias entre as eleições e a posse do novo mandatório, sempre foram remotas. Assim, Republicanos e Democratas realizaram transições entre si sem tentativas explícitas de desrespeitar o resultado eleitoral ou a legitimidade da escolha do povo. Porém, como dito anteriormente, não sabemos se esse procedimento se repetirá dessa vez, uma vez que Donald Trump é, realmente, um presidente muito diferente de seus antecessores. Inclusive, ele foi o único no passado recente a questionar a solidez do processo eleitoral antes mesmo dele acontecer, o que sinaliza uma clara tentativa de minar a legitimidade das eleições.


Tendo isso em vista, façamos um exercício: é final da noite de 3 de Novembro, dia das eleições americanas, e milhões de votos ainda não foram contados, devido ao uso preponderante de voto por correio em decorrência da pandemia. A mídia, obviamente, se recusará a dar a corrida como finalizada, mas, baseados nos votos já validados, Trump lidera em swing states, ou seja, em estados que flutuam entre Republicanos e Democratas, o que lhe dá o número mínimo de 270 delegados, que constituem maioria no colégio eleitoral.



Os Swing States (ou Purple States) das eleições de 2020 são: Arizona, Colorado, Florida, Georgia, Iowa, Michigan, Minnesota, North Carolina, Ohio, Pennsylvania, Texas, Virginia e Wisconsin. (Imagem: Reprodução)



A princípio, na primeira noite, parece que o presidente foi reeleito e ele, em linha com sua personalidade, clama vitória. Porém, como os democratas costumam votar mais intensamente por correio em relação às suas contrapartes republicanas, a contagem que se sucede aponta vitória de Joe Biden. O primeiro evento, de vitória momentânea do candidato republicano, é chamado de red mirage, enquanto à virada posterior do concorrente democrata é dado o nome de blue shift.


Nesse panorama, há uma série de eventos que podem levar a um cenário de incertezas elevadas, como, por exemplo, o levantamento de suspeitas de fraude por parte do atual presidente ou o envio da guarda nacional para “assegurar” (entre muitas aspas) os locais de contagem durante os dias subsequentes ao 3 de Novembro. Isso incendiaria as disputas políticas no Congresso e se transformaria potencialmente em uma eleição contestada e judicializada, o que é péssimo para os mercados, devido à elevação do prêmio de risco e da insegurança política, em um cenário economicamente já instável. Devido a essa possibilidade, os contratos futuros de VIX de Novembro, que medem a volatilidade esperada para o mês, quebraram recordes de alta, sinalizando que o pleito chegou a ser considerado o pior da história americana.


Entretanto, a margem entre os dois concorrentes se elevou com a paralisação da campanha do presidente devido à Covid-19 e à sua má performance no primeiro debate. Consequentemente, as chances de um blue wave, que é o nome dado a uma vitória dos democratas no executivo e legislativo, aumentaram – o que potencializa a probabilidade de um rompimento dos republicanos com a Casa Branca.


Em outras palavras, um êxito contundente do candidato de oposição faria o atual incumbente perder o apoio republicano para ações que contestassem o resultado das eleições legalmente. Isso já acontece em menor escala, com os senadores do governo, que sempre se alinharam ao mandatário, oferecendo certa resistência nas negociações do pacote de estímulos, à despeito do pedido de Trump para a aprovação.


O mercado, desde então, reagiu positivamente à diminuição das chances de um cenário de stress eleitoral e passou a precificar vitória democrata. No entanto, há muito o que acontecer no chamado período de transição e, mesmo sem apoio, o presidente pode oferecer resistência a conceder derrota, atrapalhando justamente a votação das medidas fiscais, que são um gatilho importante para destravar o mercado norte-americano no curto prazo. É pouco provável que um cenário contestado se estenda até a posse, em 20 de janeiro, mas, ainda assim, é possível. Isso sufocaria a economia pela falta de estímulos e pela incerteza, que diminuiria a confiança e impactaria negativamente na atividade. Não é nem preciso dizer que, nesse caso, seria queda livre para as bolsas a nível global.


Por conseguinte, mesmo em vista do desempenho recente dos mercados em relação somente às eleições, é necessário cautela. O upside em um cenário de vitória limpa de Joe Biden é elevado para alguns setores, porém, o downside, em um evento de disputa judicializada é, embora menos provável, potencialmente pior. Aqueles que não se protegerem e planejarem minimamente contra eventuais riscos eleitorais podem se arrepender no futuro e aí não adiantará chorar mais o prejuízo, apenas esperar a recuperação.



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