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Insider Informations e Vale: era possível prever a queda das ações?

Atualizado: 21 de nov. de 2020

Por Filipe Rodrigues


Janeiro de 2019 ficará marcado para sempre na história do Brasil pelo desastre ambiental, quando a barragem 1 do complexo Mina do Feijão se rompeu em Brumadinho (MG). No dia do desastre, a Bolsa de Valores brasileira (B3) estava fechada por ser feriado na cidade de São Paulo, porém no mercado americano (ADR’s – American Depositary Receipts) as ações da Vale já haviam caído cerca de 8% e somente na segunda-feira (28/01/2019) o mercado nacional sentiu o forte impacto desse evento nas ações da companhia. Assim, surge a dúvida se a baixa nas ações surpreendeu todos ou se de alguma forma haveria indícios de que as ações da Vale poderiam se desvalorizar, sem importar o motivo. Mediante ao exposto, a resposta é que sim, é possível “prever”, com maior ou menor grau de probabilidade, se um ativo financeiro está próximo de uma valorização ou desvalorização. Para isso, utilizamos a análise técnica para mostrar uma série de indícios gráficos, em uma espécie de estudo investigativo de que não estava tudo bem com a empresa.


Nesse viés, é necessário explicar que análise técnica dá enfoque ao reflexo do comportamento humano (agentes participantes do mercado financeiro) através de padrões gráficos em um plano cartesiano de preço X tempo, onde o foco da análise é única e exclusivamente o preço do ativo. Para esta análise, também utilizaremos um indicador técnico, chamado MACD (Moving Average Convergence Divergence), o qual fornece duas médias móveis que oscilam conforme o preço se move pelo gráfico. Conforme o elencado, as médias móveis são linhas que indicam o valor médio do preço em determinado período, e são chamadas também de rastreadores de tendência, pois quando as médias acompanham o movimento dos preços, temos o fenômeno da convergência, porém quando as médias não acompanham os preços, temos uma divergência. Por conseguinte, diz-se que as divergências indicam fraqueza do movimento vigente, assim indica um alerta importantíssimo de que algo está errado com o mercado, ou seja, pode estar havendo uma mudança de comportamento. Quando se alinha este instrumento com outras técnicas de análise, tem-se uma poderosa ferramenta capaz de prever com algum grau de probabilidade o rumo do ativo. Dito isso, exemplifica-se a seguir.

A imagem abaixo mostra o gráfico diário da VALE3 (ações ordinárias), na qual cada vela representa 1 dia de pregão. As ações da empresa vêm em forte tendência de alta desde 2016 com valorização acumulada de mais de 650% de janeiro de 2016 até setembro de 2018. Dessa maneira, parece apenas um monte de movimentos caóticos e aleatórios, mas qual informação escondida neste gráfico “prevê” a maior desvalorização da história da Vale? Precisa-se investigar a fundo.


No gráfico abaixo, os preços estavam se apoiando sobre uma LTA (linha de tendência de alta) destacada em preta (diagonal), assim os preços continuavam a subir sempre que chegavam naquela região. Na análise técnica, essa região é chamada de suporte. Por volta do dia 17/05/2018 até 26/09/2018, pode-se ver explicitamente uma divergência entre os preços e o oscilador MACD. Veja que enquanto os preços fazem uma nova máxima em relação ao topo anterior (marcado pela seta azul no gráfico), o MACD não acompanha e faz um topo mais baixo que o anterior. Esta é a divergência de baixa, que sugere fraqueza do movimento de alta vigente até então. Agora um fato curioso: no dia 26 de setembro de 2018, a empresa alemã Tüv Süd realizou uma inspeção regular de segurança na barragem e a empresa alegou que tais inspeções estavam de acordo com o disposto em portaria do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Como você pode ver, é muito estranho que exatamente no mesmo dia em que a empresa realizou a inspeção de segurança, o preço da ação começou a cair (após a divergência de baixa apresentada pelo MACD), e logo depois rompeu também a linha de tendência de alta (LTA) que vinha sendo respeitada, ou seja, uma quebra/mudança de comportamento.

Neste momento, fica comprovado a atuação dos agentes se desfazendo do papel, mas por que eles estariam se desfazendo? Uma possibilidade é a insider information, quando alguns players possuem informações privilegiadas a respeito da empresa e começam a agir antes que o mercado perceba por completo, pois, afinal de contas, a informação é assimétrica. Obviamente, muitas pessoas envolvidas já sabiam dos riscos que a barragem corria e começaram a liquidar suas posições, e, como dito no início deste texto, o gráfico reflete o comportamento humano. Além da análise descrita anteriormente, podemos observar também que todo o movimento de queda que rompeu a LTA retraiu entre o 50% e o 61,8% do Fibonacci, o que indica provável continuidade no movimento de baixa.


No atual momento do texto, faz-se uma análise muito semelhante, utiliza-se novamente o oscilador MACD, porém no gráfico de 1 hora, analisa-se o que estava acontecendo dias antes do desastre ocorrer.

Não obstante, o gráfico de 1 hora apresenta o mesmo fenômeno de divergência de baixa apresentado no gráfico diário. Uma semana antes do rompimento da barragem, os preços fazem um topo (18/01/2019). Na semana da tragédia o topo anterior é ultrapassado, porém o MACD não acompanha. Novamente indicando fraqueza deste movimento de alta vigente, nesse momento note como é diferente a inclinação das setas azuis indicando a divergência. A seta que aponta para baixo (MACD) está mais acentuada, o que torna a divergência mais significativa. Quando inicia o pregão na bolsa brasileira (B3) na segunda-feira, 28/01/2019, as ações da Vale abrem com um enorme gap de baixa já registrando desvalorização de 18%, chegando a cerca de 24% no mesmo dia, a maior perda em valor de mercado da história da empresa.


É interessante ressaltar que a análise técnica é exatamente assim: os padrões se repetem em todos os tempos gráficos e nos mostram mensagens que estão além do nosso alcance em termos de informação, servindo de raio-X para o comportamento dos agentes participantes. É evidente que nem a análise técnica, nem qualquer outra escola de análise de ativos irá prever um desastre como este. A questão é: o que o preço do ativo está nos dizendo?


Ressaltamos que a IMPACTUS UFRJ lamenta profundamente pelo ocorrido, além disso presta condolências às vítimas e familiares das vítimas.


FIM.


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